Frankie.
Um estudo de personagem pop-noir sobre raiva, renascimento e o que acontece quando uma mulher se recusa a ser simplificada.
“É verdade, seremos monstros, isolados de todo o mundo; mas, por isso mesmo, mais ligados um ao outro.”
Mary Shelley, Frankenstein (1818)
A menina que era demais.
Aos doze anos, Laura pediu de Natal um esqueleto em tamanho real. Deu a ele um nome, Michael, e um chapéu. Os adultos chamavam aquilo de mórbido; ela queria saber o que morava atrás de toda cortina marcada com “não toque”.
Cresceu ouvindo que sentia demais, falava demais, era demais. Aos dezesseis, trocou São Paulo por Nova York. Na faculdade, entre aulas sobre o Mal, leu Frankenstein. Foi ali que aprendeu que a criatura não nasce monstro. Vira monstro, no espaço entre querer e ser negada.
Anos depois, a própria carreira começou a parecer aquela criatura: montada por homens que nunca enxergaram o que ela enxergava. Ela quase desistiu. A saída estava ali: a academia, o mundo corporativo. Ficou, e fez do monstro uma personagem.
Frankie é esse monstro, costurada de batidas, memórias e regras quebradas, com Suspiria e o mito de Perséfone na mistura. O alter ego de toda mulher que já ouviu que era demais.
“Too much” women are evergreen monsters.Mulheres “demais” são monstros que nunca saem de moda.
Uma história, quatro cartas.
O curta abre como um baralho de tarô. O EP também: quatro faixas, uma história só, lida em ordem.
Na primeira carta, Sea of Tragedy, vem a desilusão: ela entende que foi contida por quem nunca vai enxergar o mundo pelos olhos dela. No clipe, todo desenhado, uma mulher de branco é agarrada por muitas mãos, montada numa mesa de operação e negociada num aperto de mãos.
Na segunda, Daughter of Demeter, Perséfone se senta à mesa dos homens, e a raiva deixa de ser defeito para virar ferramenta. No fim, as chamas estão nas mãos dela.
Na terceira, Come Clean, chega o acerto de contas: o que houve de bom e de ruim, o amor e a raiva. As duas coisas são dela.
Na última, GODDESS ENERGY, ela se aceita inteira, com as cicatrizes, e sai para a noite com as amigas.
Dois dias em novembro.
Antes de ser um disco, Frankie existiu por dois dias inteiros num set. As fotos de bastidor guardam a hora exata de cada clique, e dá para refazer esses dois dias quase minuto a minuto.
Começo da tarde. Num estúdio de paredes pretas, Laura senta na cadeira de maquiagem ainda como ela mesma. Pincéis, cílios, um espelho cercado de lâmpadas. Frankie começa assim: pelas mãos dos outros.

Uma hora depois, ela já é outra. Corpete roxo, arabescos dourados, coroa: vestida como a deusa do retrato de moldura oval que abre Daughter of Demeter. A câmera gira em volta dela na fumaça, e ela ri para a lente.

No fim da tarde, a mesa do banquete está posta: velas, taças de metal, uvas e romãs, a fruta que prende Perséfone ao mundo de baixo. Laura não se senta. Sobe na mesa e a atravessa de quatro, entre as chamas.


Quando anoitece, troca de pele: vestido vermelho, espartilho preto, pérolas nos pulsos. A mesma mesa, outra mulher. Às 19h08, ela fica sozinha sob um único feixe de luz, e o estúdio inteiro fica verde.


Às 20h37, ela ocupa a cabeceira. Do outro lado, um homem de terno, de costas para nós. É o jantar de Daughter of Demeter: Perséfone à mesa dos homens, sem pedir licença.

Perto da meia-noite, o cenário vira festa: balões prateados, ouropel, copos vermelhos, as amigas. Quatro mulheres brilhando cabem num mesmo selfie. É GODDESS ENERGY, a última carta do baralho e a primeira a chegar ao público.

Às 23h39, o primeiro dia acaba em silhuetas contra a luz.

Na segunda, o monstro some. Num casarão de papel de parede com pássaros e espelho dourado, Laura veste uniforme escolar e senta para um café da manhã impecável: panquecas, leite, ovo quente. É assim que o curta apresenta a Frankie de verdade, uma menina comportada numa casa onde tudo tem lugar.

À tarde, ela se espalha pela escada de mármore com um livro antigo de capa dourada. A amiga de tranças aparece, tem um cachorrinho no colo, e a cena se desfaz numa crise de riso.


À noite, num quarto de luzinhas, urso de pelúcia e pôsteres na parede, ela escreve num caderno e toca violão. A menina que compõe.

Às 20h10, o trench coat vai por cima da roupa de festa. Ela vai fugir de casa. No curta, foge mesmo: a noite termina dançando pela cidade com as amigas.

Quarenta e dois minutos depois, o grito. Mãos no cabelo, boca aberta, luz azul. Tudo o que a menina comportada engole durante o dia sai de uma vez.

Depois, só a sombra dela contra o verde.

E o vestido vermelho volta, entre cortinas de veludo e velas. A menina do casarão e a mulher do banquete são a mesma. O curta passa o tempo todo costurando uma na outra.

Às 23h47, o último clique. Em 2024, o mundo conheceu Frankie.

Quem fez o Frankie.
Laura escreveu a história e comandou a direção criativa do projeto inteiro, do figurino à imagem, ao longo de dois anos. No curta, mulheres assinam a direção, a produção executiva, a direção de arte, o figurino e a maquiagem; no EP, a produção executiva é de Skyler Cocco. Em 2025, o clipe animado de Sea of Tragedy ganhou um Silver Telly Award.
- História
- Laura Pieri
- Direção
- Maíra Sarmento
- Produção executiva & direção de animação
- Gabriela Leal
- Direção de fotografia
- Alex Tavares
- Animação
- Ricardo La Bella
- Ilustração & storyboard
- Fellipe Gonzalez
- Direção de arte
- Amanda da Mota
- Figurino
- Camila Chiondini
- Cabelo & maquiagem
- Elis de Sousa
- Música
- Skyler Cocco, YXSH
- Letras
- Skyler Cocco, Laura Pieri
- Produção
- Cake Studio & AT Films
Frankie saiu para dançar.
Frankie não terminou num final feliz. Terminou numa pista. Em 2025, as faixas voltaram remixadas, uma a uma, ao lado da inédita Flown Away, até virarem Frankie (ON THE DANCEFLOOR).
Em setembro, Laura abriu “o armário da Frankie” e anunciou a temporada final. No dia 19, a personagem saiu de cena, e começou uma nova era.
O que ficou no armário virou uma coleção feita com a ONE432: tecido que seria descartado, bordado à mão, com metade do lucro para a educação de crianças e para os artesãos. Beleza no que estava quebrado, que é o assunto de Frankie desde o começo.
Ver a coleçãoFrankie’s always been my monster.Frankie sempre foi o meu monstro.



