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Laura Pieri03 / FRANKIE

03 / FRANKIE — 2024

Frankie.

Um estudo de personagem pop-noir sobre raiva, renascimento e o que acontece quando uma mulher se recusa a ser simplificada.

“É verdade, seremos monstros, isolados de todo o mundo; mas, por isso mesmo, mais ligados um ao outro.”

Mary Shelley, Frankenstein (1818)
FRANKIE / O FILME

01 / Prólogo

A menina que era demais.

Aos doze anos, Laura pediu de Natal um esqueleto em tamanho real. Deu a ele um nome, Michael, e um chapéu. Os adultos chamavam aquilo de mórbido; ela queria saber o que morava atrás de toda cortina marcada com “não toque”.

Cresceu ouvindo que sentia demais, falava demais, era demais. Aos dezesseis, trocou São Paulo por Nova York. Na faculdade, entre aulas sobre o Mal, leu Frankenstein. Foi ali que aprendeu que a criatura não nasce monstro. Vira monstro, no espaço entre querer e ser negada.

Anos depois, a própria carreira começou a parecer aquela criatura: montada por homens que nunca enxergaram o que ela enxergava. Ela quase desistiu. A saída estava ali: a academia, o mundo corporativo. Ficou, e fez do monstro uma personagem.

Frankie é esse monstro, costurada de batidas, memórias e regras quebradas, com Suspiria e o mito de Perséfone na mistura. O alter ego de toda mulher que já ouviu que era demais.

“Too much” women are evergreen monsters.

Mulheres “demais” são monstros que nunca saem de moda.

Laura PieriSubstack, junho de 2025

02 / O baralho

Uma história, quatro cartas.

O curta abre como um baralho de tarô. O EP também: quatro faixas, uma história só, lida em ordem.

  1. Mãos ajustam o colar de Laura, ajoelhada no figurino roxo.I

    Sea of Tragedy

    A desilusão

  2. Laura, de vestido vermelho, debruçada sobre a mesa do banquete, com uma vela à frente.II

    Daughter of Demeter

    A raiva

  3. Laura, de vermelho, olha de lado, com cortinas de veludo atrás.III

    Come Clean

    O acerto de contas

  4. Laura na festa, sob balões prateados e neon.IV

    GODDESS ENERGY

    A aceitação

Na primeira carta, Sea of Tragedy, vem a desilusão: ela entende que foi contida por quem nunca vai enxergar o mundo pelos olhos dela. No clipe, todo desenhado, uma mulher de branco é agarrada por muitas mãos, montada numa mesa de operação e negociada num aperto de mãos.

Na segunda, Daughter of Demeter, Perséfone se senta à mesa dos homens, e a raiva deixa de ser defeito para virar ferramenta. No fim, as chamas estão nas mãos dela.

Na terceira, Come Clean, chega o acerto de contas: o que houve de bom e de ruim, o amor e a raiva. As duas coisas são dela.

Na última, GODDESS ENERGY, ela se aceita inteira, com as cicatrizes, e sai para a noite com as amigas.

03 / Os bastidores

Dois dias em novembro.

Antes de ser um disco, Frankie existiu por dois dias inteiros num set. As fotos de bastidor guardam a hora exata de cada clique, e dá para refazer esses dois dias quase minuto a minuto.

O estúdio

  1. Começo da tarde. Num estúdio de paredes pretas, Laura senta na cadeira de maquiagem ainda como ela mesma. Pincéis, cílios, um espelho cercado de lâmpadas. Frankie começa assim: pelas mãos dos outros.

    Uma maquiadora trabalha nos cílios de Laura diante do espelho de camarim.
  2. Uma hora depois, ela já é outra. Corpete roxo, arabescos dourados, coroa: vestida como a deusa do retrato de moldura oval que abre Daughter of Demeter. A câmera gira em volta dela na fumaça, e ela ri para a lente.

    Laura, de corpete roxo e dourado e coroa, sorri para a câmera estabilizada na fumaça.
  3. No fim da tarde, a mesa do banquete está posta: velas, taças de metal, uvas e romãs, a fruta que prende Perséfone ao mundo de baixo. Laura não se senta. Sobe na mesa e a atravessa de quatro, entre as chamas.

    Laura olha por cima do ombro, com velas acesas ao lado.
    Laura atravessa de quatro a mesa do banquete, entre candelabros e fruteiras.
  4. Quando anoitece, troca de pele: vestido vermelho, espartilho preto, pérolas nos pulsos. A mesma mesa, outra mulher. Às 19h08, ela fica sozinha sob um único feixe de luz, e o estúdio inteiro fica verde.

    Laura, de vestido vermelho e espartilho preto, ajoelhada na mesa, com pérolas nos pulsos.
    Laura de pé sob um único feixe de luz, com a sala banhada de verde.
  5. Às 20h37, ela ocupa a cabeceira. Do outro lado, um homem de terno, de costas para nós. É o jantar de Daughter of Demeter: Perséfone à mesa dos homens, sem pedir licença.

    Laura à cabeceira da mesa iluminada por velas, de frente para um homem visto de costas.
  6. Perto da meia-noite, o cenário vira festa: balões prateados, ouropel, copos vermelhos, as amigas. Quatro mulheres brilhando cabem num mesmo selfie. É GODDESS ENERGY, a última carta do baralho e a primeira a chegar ao público.

    Laura e três amigas de roupa brilhante fazem uma selfie sob balões prateados.
  7. Às 23h39, o primeiro dia acaba em silhuetas contra a luz.

    A equipe em silhueta contra uma luz laranja.

O casarão

  1. Na segunda, o monstro some. Num casarão de papel de parede com pássaros e espelho dourado, Laura veste uniforme escolar e senta para um café da manhã impecável: panquecas, leite, ovo quente. É assim que o curta apresenta a Frankie de verdade, uma menina comportada numa casa onde tudo tem lugar.

    Laura de uniforme escolar à mesa de um café da manhã formal, com panquecas e leite.
  2. À tarde, ela se espalha pela escada de mármore com um livro antigo de capa dourada. A amiga de tranças aparece, tem um cachorrinho no colo, e a cena se desfaz numa crise de riso.

    Laura deitada na escada, lendo um livro antigo de capa dourada.
    Laura, com um cachorrinho no colo, ri com uma amiga de tranças na escada.
  3. À noite, num quarto de luzinhas, urso de pelúcia e pôsteres na parede, ela escreve num caderno e toca violão. A menina que compõe.

    Num quarto de luz quente, Laura toca violão enquanto a amiga está deitada na cama.
  4. Às 20h10, o trench coat vai por cima da roupa de festa. Ela vai fugir de casa. No curta, foge mesmo: a noite termina dançando pela cidade com as amigas.

    Laura e a amiga de trench coat por cima de roupas brilhantes, junto à janela do quarto.
  5. Quarenta e dois minutos depois, o grito. Mãos no cabelo, boca aberta, luz azul. Tudo o que a menina comportada engole durante o dia sai de uma vez.

    Laura grita com as mãos no cabelo, sob luz azul.
  6. Depois, só a sombra dela contra o verde.

    A silhueta de cabelos cacheados contra uma luz verde na parede.
  7. E o vestido vermelho volta, entre cortinas de veludo e velas. A menina do casarão e a mulher do banquete são a mesma. O curta passa o tempo todo costurando uma na outra.

    Laura, de vestido vermelho, deitada sob cortinas de veludo vermelho, com velas ao lado.
  8. Às 23h47, o último clique. Em 2024, o mundo conheceu Frankie.

    A equipe filma Laura de vestido vermelho junto a uma janela, com a sala em verde.

04 / Créditos

Quem fez o Frankie.

Laura escreveu a história e comandou a direção criativa do projeto inteiro, do figurino à imagem, ao longo de dois anos. No curta, mulheres assinam a direção, a produção executiva, a direção de arte, o figurino e a maquiagem; no EP, a produção executiva é de Skyler Cocco. Em 2025, o clipe animado de Sea of Tragedy ganhou um Silver Telly Award.

História
Laura Pieri
Direção
Maíra Sarmento
Produção executiva & direção de animação
Gabriela Leal
Direção de fotografia
Alex Tavares
Animação
Ricardo La Bella
Ilustração & storyboard
Fellipe Gonzalez
Direção de arte
Amanda da Mota
Figurino
Camila Chiondini
Cabelo & maquiagem
Elis de Sousa
Música
Skyler Cocco, YXSH
Letras
Skyler Cocco, Laura Pieri
Produção
Cake Studio & AT Films

05 / Epílogo

Frankie saiu para dançar.

Frankie não terminou num final feliz. Terminou numa pista. Em 2025, as faixas voltaram remixadas, uma a uma, ao lado da inédita Flown Away, até virarem Frankie (ON THE DANCEFLOOR).

Em setembro, Laura abriu “o armário da Frankie” e anunciou a temporada final. No dia 19, a personagem saiu de cena, e começou uma nova era.

O que ficou no armário virou uma coleção feita com a ONE432: tecido que seria descartado, bordado à mão, com metade do lucro para a educação de crianças e para os artesãos. Beleza no que estava quebrado, que é o assunto de Frankie desde o começo.

Ver a coleção
Frankie’s always been my monster.

Frankie sempre foi o meu monstro.

Laura Pierisetembro de 2025